Clara Nunes sintetiza pra mim, tudo de bom que a arte pode mostrar às pessoas, simples assim. Música, cultura popular, arte visual, ritmo e folclore remetidos através da mais bela interpretação, da mais bela voz, do mais belo jeito de ser, da mais bela representatividade. Sua arte precisava existir para o bem da música e resistiu. Hoje é claridade para os sentidos, imortal portanto.
Clara Nunes ousou cantar samba em um período do Brasil e da música, nada favorável à ela: Pouco depois do surgimento do tropicalismo, no meio da ampliação do processo de internacionalização da música, crescendo a tendência do rock nos anos 80. Emergindo Roberto Carlos, o período distanciou-se dos ritmos nacionais, que embora brasileiríssimo no conteúdo popular, estranhamente afastou-se de nossos pilares. Além disso, o Brasil estava sob forte ditadura militar e uma mulher cantando sobre direitos, regionalismos e cultura popular não era de jeito nenhum bem vista.
Mas a música e a arte foram as formas possíveis de expressão do protesto, e ela não ligou para censura. Os meios de comunicação ajudaram a resistência democrática, ao apoiar manifestações artísticas de rebeldia, em todas as direções, e ela andou.
Fiel à música permaneceram somente os fortes, dentre os que corajosamente utilizaram-se do protesto musical como forma de discurso político possível: O músico Chico Buarque, o violinista Luiz Bonfá, a cantora Elis Regina, o poeta Vinícius de Moraes, o maestro Tom Jobim, o compositor Paulo César Pinheiro e entre eles, Clara, que igualmente usou a música para existir e resistir. Sua forma de protestar vem através de uma resistência cultural tanto na manutenção do ritmo do samba como na afirmação de valores afro-brasileiros.
A figura de comunicação de Clara trazia às pessoas uma personagem simbólica muito clara: A mestiça de cabelo crespo com uma sensualidade ímpar, saudável, pronta para o riso, o olhar repleto de graça e bondade, uma flor de brasilidade. Tais características apresentavam-se em uma moça sem qualquer arrogância, que partiu da atividade de operária tecelã para a vitória na arte musical. O povo percebia na figura dela uma forma de identificação, pois mantivera sua simplicidade e limpeza de alma indispensáveis à aceitação dos vitoriosos. E mais: Sua arte trazia o canto do povo e não mais das elites.

Mercê de seu dom e de sua missão, Clara possuía voz de soprano lírico dramático. Espontânea, natural, com índices ideais de intensidade e extensão para o canto popular. Havia um elo de energia positiva no que emitia e isso se transmitia nas canções. Feminilidade saltava-lhe através das formas discretas mas expressivas e sensuais com as quais movia o corpo ao ritmo das músicas. A sensualidade de Clara jamais foi explícita, extrovertida ou artificialmente acentuada. Fluía naturalmente, a partir de algo invisível, difícil de se explicar. Estava na respiração, no olhar natural e incorporado. Ademais, Clara ousou trazer a religiosidade profunda dos segmentos negros da sociedade brasileira, unindo-os no produto final. Tais elementos, faziam parte da arte de Clara.
Alguma coisa de profunda e comovente toca a sensibilidade de quem a escuta e sente. Há algo de ingenuidade e meninice. Há a simplicidade das regiões do interior do Brasil. Há negro e branco. Em resumo, trata-se de uma artista capaz de sintetizar enumeráveis profundidades em seu modo de ser e de se expressar. Símbolo maior de um povo e de um país, que ela mesmo cantava.
Alguma coisa de profunda e comovente toca a sensibilidade de quem a escuta e sente. Há algo de ingenuidade e meninice. Há a simplicidade das regiões do interior do Brasil. Há negro e branco. Em resumo, trata-se de uma artista capaz de sintetizar enumeráveis profundidades em seu modo de ser e de se expressar. Símbolo maior de um povo e de um país, que ela mesmo cantava.
Fico feliz de escutá-la, de vê-la cantar, irremediavelmente bobo ao falar de sua arte, de sua liberdade, que só quem sente é quem sabe explicar. À vitória da música parecendo uma maravilha de aquarela que surgiu. Algo assim como o manto azul da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida... Emergindo e que vai se arrastando, convencendo, e o povo na rua cantando: Coisa linda, muito bela, feito uma reza, um ritual...
0 RaScUnHo'S:
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